segunda-feira, 23 de maio de 2011

Teologia na sociedade moderna ocidental


O Reino é dom, mas um dom pessoal, que suscita uma resposta do ser humano. A atuação do amor de Deus convida e capacita à aceitação da Boa Nova, que é o Reino de Deus, e à vivência da conversão, entendida como arrependimento do mal realizado e como reorientação da vida em conformidade com a vontade de Deus.

Assim, a resposta que o dom do Reino suscita consiste, com a conversão, na abertura e na entrega da pessoa, vividas na fé e na confiança: fé e confiança no Deus da vida, mesmo quando o futuro parece fechado; fé e confiança nas situações atuais que, mesmo quando muito negativas, não são a última possibilidade desse Deus, pois nele existe sempre um futuro aberto. Esta fé confiança é indispensável para todo aquele que aceita o dom do Reino de Deus.

No contexto do mundo atual, a religião em geral e a linguagem da salvação cristã em particular afiguram-se individualistas e até mesmo privativistas. Alguns fatores da cultura secular contemporânea estimulam esse privatismo. O fato de a totalidade das esferas da vida secular na sociedade ter se libertado da hegemonia de qualquer religião organizada pode ser considerado como um desenvolvimento positivo. E, dado um pluralismo de religiões, a liberdade de todas elas parece depender de sua fraca projeção pública. Conseqüentemente, a era moderna, na cultura ocidental, tem testemunhado a privatização da religião, de sua linguagem teológica e da autocompreensão das pessoas religiosas.

A questão religiosa torna-se a questão intensamente pessoal do sentido em face do sofrimento individual, do pecado e da culpa do próprio sujeito, da desorientação e, finalmente, da morte e do destino último de cada um. Uma vez que a questão religiosa seja concebida nos termos individuais e pessoais do sujeito auto–reflexivo, toda a superestrutura religiosa parece não escapar nunca ao privatismo, mesmo quando se trata de individualismo coletivo ou de grupo. Termina-se sempre com a salvação dos indivíduos. No entanto, para o sujeito pós-moderno, isso significa que a religião deixa de fazer qualquer diferença na história social e coletiva. A salvação cristã realmente nada tem a oferecer à ordem pública; como assunto de caráter privado, parece irrelevante para as decisões que estruturam a vida social e pública.

Evidentemente, os grupos cristãos têm seu próprio interreses nos negócios públicos e, como instituições, pressionam para que suas vozes façam ouvir. No entanto, ao fazê-lo, não estão necessariamente falando a linguagem da salvação que é intrínseca à fé cristã: a preocupação com o interrese próprio das instituições passa ao largo da pregação Jesuânica do reino de Deus. Com efeito, a fé em uma salvação meramente individual pode funcionar como paliativo para o sofrimento social; logicamente, mitiga a preocupação com a ordem social deste mundo.

A salvação definitiva torna-se a distração máxima do engajamento político. Uma coisa é certa: para alguém apaixonadamente interessado no projeto humano, a religião não oferece nenhuma plataforma por meio da qual essa paixão será correspondida. Uma indicação da relativa acurácia dessa crítica pós-moderna ao discurso das Igrejas é a tíbia recepção, por parte delas, das várias formas da teologia da libertação que repercutem a crítica e procuram enfrentar o problema.

A buscas de novos paradigmas na sociedade atual, para a ciência em geral e para a teologia em particular, aponta para o diálogo. Diálogo entre as religiões, como um dos caminhos para construir a paz no mundo; diálogo entre as ciências, para uma abordagem cada vez mais interdisciplinar do que se coloca diante da vida humana. Exatamente nesta perspectiva, a cristologia precisa abrir-se para a interdisciplinaridade, inclusive dentro da própria teologia.

Ela não pode ser um conhecimento gerado à parte, independente dos outros domínios do saber teológico e do comportamento cristão. Cabe, aqui, recordar que o seguimento de Jesus é condição epistemológica para a elaboração da cristologia, já que esta não é simplesmente a enumeração de curiosidades sobre a vida de Jesus, mas sim conhecimento do Cristo para melhor amá-lo. Neste sentido, a vivência concreta dos cristãos tem interrese para a cristologia, e vice versa. O mesmo acontece entre a cristologia e os outros campos do conhecimento teológico.

Na presença do Espírito de Deus, e guiados por ele, haveremos de ser capazes de elaborar uma teologia que seja fiel a Jesus e que se coloque a serviço de toda a humanidade, ajudando-a a construir um tempo novo, de justiça e fraternidade, até que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).


Dom  Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar neste blog