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quinta-feira, 8 de março de 2012

Dignidade do Outro.


A dignidade se baseia no reconhecimento da pessoa como ser digno de respeito. É uma necessidade emocional que todos nós temos de reconhecimento público de se ter feito bem as coisas, em relação a autoridades, amigos, círculo familiar, social, entre outros.

O objetivo geral da Igreja Católica Carismática é levar sociedade a defender e a promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos, na busca de sua plenificação, a partir da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias, e do compromisso ético do amor fraterno. 


Se as exigências éticas de Jesus constituem tropeços para o ser humano moderno, somente o são em virtude de sua vontade egoísta, mas não de sua inteligência. A alma só é bela pela inteligência, e as outras coisas, tanto nas ações como nas intenções, só são belas pela alma que lhes dá a forma da beleza.


Precisamos nos ajudar a olhar a realidade com clareza e coragem, para poder fazer as escolhas também nós como pessoas humanas, no sentido pleno do termo, conhecendo o que estamos fazendo e o porquê, qual a finalidade.



Com certeza estamos todos perplexos, principalmente quem está na linha de frente, diante das situações de miséria que se perpetuam e do poder com que a biotecnologia nos dotou. O que fazer? Para tentar passos que nos levem como sociedade, a nos aproximarmos da meta, antes de tudo é preciso ter clareza sobre qual é a meta.


Se a complexidade é tamanha, não se pode pensar em resolver a situação agindo só em um fator, por exemplo, eliminando a parte mais frágil. Talvez nenhum de nós tenha a resposta na ponta da língua, de como resolver, mas podemos nos ajudar no caminho: aconteça o que acontecer, a meta é o direito de cada pessoa humana à vida, e a uma vida que tenha beleza e sentido, mesmo na dor e na dificuldade. 

Nesse sentido, a Igreja Católica Carismática nos convida a celebrarmos a nossa dignidade pessoal e a lutarmos pelo reconhecimento e respeito pela dignidade do outro, especialmente dos ainda não-nascidos, dos doentes, dos idosos, dos miseráveis, dos famintos, dos analfabetos, dos marginalizados e dos excluídos em geral.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese de Belo Horizonte

Dia Internacional da Mulher - (08/03/2012) - Mulher na Bíblia


Neste dia internacional da Mulher, momento em que, nesta sociedade pós-moderna homenageamos a mulher, dando destaque a sua grande evolução. Não poderíamos deixar de refletir um pouco sobre o que diz a Sagradas Escrituras sobre a mulher, em sua maioria, coisas muito positivas.

Alguns humanistas acusam a Bíblia de machismo. Talvez nunca tenham analisado provérbios (31,10-31), que contempla o louvor da mulher virtuosa, as suas habilidades, suas realizações, suas atitudes e seus elogios. Isso coloca por terra qualquer acusação de machismo. 


Especialmente quando sabemos que o livro dos provérbios foi escrito a aproximadamente três mil anos, numa época em que a mulher não gozava do conceito atual perante a sociedade.


Numa cultura predominante masculina, o povo de Deus (Israel), possuía profetisas como o caso de Miriã, a irmã de Moisés (Êxodo 15,20-21). E, Débora que, além de profetisa, era juíza em Israel (Juizes4, 4-10).


Ao longo do Antigo Testamento são muitas as ocasiões onde a mulher é honrada por Deus. Havendo, inclusive, o caso de duas mulheres de Israel, que deram o nome os dois livros do antigo testamento: Rute e Ester; a segunda havendo, inclusive, tornado Rainha, nos dias de assueiro, o assuero que reinou desde a Índia a Etiópia. (Ester 1, 2).


Nos tempos do Novo Testamento, quando a situação social da mulher ainda era de inferioridade, O Senhor Jesus, muitas vezes honrou a mulher. E, o apóstolo Paulo, considerado por muitos, o mais machista dos autores sagrados, foi quem através de alguns textos, quem afirmou a igualdade, em o nome de Jesus, entre o homem e a mulher. (Gálatas, 3, 28).


Na ressurreição de Cristo foi uma mulher, Maria Madalena, que percebeu primeiro que o sepulcro estava aberto (João 20,21); e a quem o Mestre primeiro se revelou, após Sua ressurreição (João 20, 11-18). 


Embora as expectativas sobre os papéis entre homens e mulheres tenham mudado nas últimas décadas, pode-se dizer que mudaram mais radicalmente para as mulheres. 


Longe de sugerirmos, que a mulher seria melhor que o Homem. Agora, uma coisa é certa: Ambos foram por Deus, formados, para honrarem-se mutuamente, e a sociedade pós moderna, continua sendo preconceituosa em relação à mulher.







+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese de Belo Horizonte

sábado, 14 de janeiro de 2012

FÉ E RESSURREIÇÃO


A única prova verdadeira 
da Ressurreição que convence,
 é a vida que hoje ressuscita e se renova.

As portas trancadas.. por medo podem significar nossa pessoal situação de seres ameaçados pela violência e por toda espécie de mal que nos isola do convívio com os demais.

Jesus se pôe entre os seus oferecendo sua Paz que é caminho para que a ressurreição fecunde nossa existência e história.

É preciso reconhecer os sinais de Jesus em nossa vida. Experiência de seu amor, que transforma nossas tristezas em intensas alegrias.

Crer na ressurreição não é só aceitar um fato do passado e um outro do futuro, mas é, antes de tudo, uma atitude de vida, que nasce com a descoberta de um amigo, vivo na vida, graças ao poder de Deus.

Crer na Ressurreição, portanto, é crer, não numa coisa, não em argumentos, mas é crer em Alguém, que atua em nós e por nós, com poder imenso, capaz de tirar a vida da morte e de fazer com que o que é velho se torne novo, orientando-nos para um futuro de grandes dimensões.

Crer na Ressurreição quer dizer: transpor, desde já, pela esperança, que antecipa o futuro, os limites que foram transpostos ou rompidos pela ressurreição de Jesus crucificado.

Nenhum limite, nenhuma barreira, nenhuma dificuldade, nada neste mundo, será capaz de matar a vida e a esperança, que assim nasceram no coração do homem.

Crer na Ressurreição nada tem a ver com fuga ou alienação do mundo para o além-morte ou com um cristalizar-se em torno de um fato do passado que já se foi.

O objeto da fé na Ressurreição não é colocado nem na eternidade do céu, nem na impenetrabilidade do passado, mas no futuro da terra sobra a qual foi fixada e está fincada até hoje a cruz de Cristo.

O fato do passado, testemunhado pelos Apóstolos, é o fundamento. Mas sobre este fundamento está o prédio da vida que não morre e que renasce das cinzas da morte, antecipando o novo que aparece sob as mãos dos que nela acreditam.

O ponto chave da fé na Ressurreição é o homem descobrir na sua vida esta força atual e permanente de Deus que é um Deus dos vivos.

Só assim o homem ressuscita e, ressuscitando, perceberá o alcance da sua fé na Ressurreição.

Não serão os argumentos científicos que darão valor à fé na Ressurreição, mas será a experiência concreta da Ressurreição que dará valor aos argumentos que em defesa da mesma encontrarmos.

A única prova verdadeira da Ressurreição que convence, é a vida que hoje ressuscita e se renova, que hoje vence as forças da morte, fazendo com que as forças represadas e oprimidas da vida sejam descobertas e libertadas para alegria e esperança de todos.

Esse é o comprovante de que, no homem, atua uma força mais forte do que a morte, a força de Cristo Ressuscitado.


+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Jesus é a Plenitude da Revelação



Há, pois, uma íntima união do 
homem com a divindade 
bem simbolizada no mistério de uma 
habitação comum.

Jesus é a plenitude da revelação e é em torno dele que se desenvolvem todos os temas da Bíblia. Ele é o Messias prometido, Rei vitorioso, Sabedoria eterna que vem a este mundo para salvar a humanidade através de um sacrifício.

Deus e homem verdadeiro sua figura é delineada de modo especial através dos Profetas. Fatos e figuras anunciam aspectos de sua atividade salvífica.

Percebe-se então uma espinha dorsal no Livro Santo, ou seja, determinadas mensagens que constituem o que é principal na revelação divina tudo girando em torno do Verbo Encarnado.

Em primeiro lugar o pecado do homem e a promessa de um Redentor. O velho Adão será salvo pelo novo Adão (Rom 5,14), pois, no dizer Paulino: Onde o pecado avultou a graça sobejou (Rom 5, 20). É de se notar, além disto, que esta salvação se processa numa situação de recolhimento interior.

Como se lê na passagem de Elias no Horeb. Deus não estava no grande e impetuoso furacão, nem no terremoto, nem no fogo, mas no murmúrio de uma brisa suave (I Reis 19 12).

Esta só pode ser percebida no silêncio. O profeta Oséias descreve a atitude divina que seduz e conduz ao deserto para falar ao coração (Os 2 16).

É que no contato íntimo com o Ser Supremo longe do bulício do mundo se percebe o essencial. O barulho dispersa, espalha.

O silêncio recolhe, recupera. As grandes verdades só são comunicadas através do recolhimento que gera paz, tranqüilidade, imperturbabilidade.

João Batista (Lc 1,80; 3,2) e Jesus (Mt 4,1-11) amavam a solidão. Adite-se o tema da morada de Deus junto dos homens e dentro de cada um.

No Antigo Testamento o Templo de Salomão é descrito com pormenores. Retumbante foi a frase de São João: O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14).

Jesus acrescenta dois aspectos: Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23) e na casa de meu Pai há muitas moradas (Jo 14,2).

Há, pois, uma íntima união do homem com a divindade bem simbolizada no mistério de uma habitação comum.

O Criador, porém, é um Deus que cuida de sua criatura. É o Pastor zeloso bem descrito no célebre salmo 23 (22) e com o qual Cristo se identifica com pormenores consoladores (Jo 10,1 ss.).

Ele não quer nenhuma turbulência a envolver suas ovelhas e lhes garante total segurança. Adite-se que o Senhor Altíssimo oferece alimento aos seres racionais como o maná no deserto (Ex 16,13-31), como a multiplicação dos pães operada por Jesus que se fez, ele mesmo, o pão vivo descido do céu, penhor da vida eterna (Jo 6,32 ss).

Quer no Vetero Testamento, quer no Novo, o símbolo expressivo da videira aparece com um significado profundo. Ela é plantada cuidadosamente por Deus, ela é amada por Javé e Jesus com ela se identifica, dizendo em seguida que seus seguidores são os ramos.

União vital honrosíssima para o homem. (Jo 15,1). São dezoito passagens bíblicas que enchem de conforto o leitor por meio de uma comparação realmente expressiva com esta planta.

Todas estas facetas da revelação têm como denominador comum a Aliança estabelecida por Deus com o homem que se tornou parceiro da divindade na obra de sua própria salvação.

Dentro destas perspectivas, ler a Bíblia, rezar com a Bíblia fica muito mais fácil por se ater exatamente a mensagens fundamentais da Escritura que então, sim, se torna para o crente útil para tudo.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal Cristão

O Natal é convite à solidariedade e a 
fraternidade entre os homens.


O centro da celebração do natal é, como sempre, na liturgia da Igreja, o mistério da Eucaristia. No Verbo feito carne a Igreja reconhece o Pão da vida, descido do céu. Na Eucaristia, mistério pascal, os fiéis podem estar em contato com o Verbo encarnado, morto e glorificado.

Natal é o grande momento em que celebramos Deus que veio até nós, celebramos o Emanuel. Deus entre nós. A centralidade desta noite está na encarnação. É noite de incontida alegria, é noite de luz. Com os anjos cantamos Glória a Deus nas alturas.

O Salvador do mundo, por Seu Natal, nos faz nascer para a graça. Nascendo para a vida humana possibilita-nos que nasçamos para a vida divina, se correspondermos aos Seus apelos de conversão, unindo à Sua Igreja, pela fé, pelos sacramentos, e pela prática das virtudes.

Na sociedade atual, segmentos diversos apropriaram-se do Natal e o transformaram num evento (algo eventual, passageiro), numa época de lucrativas vendas, num período de festa e consumismo.

Lembremos que o Natal, para nós, discípulos missionários de Jesus Cristo, é um grande acontecimento, que gera em nós compromisso de fé e de vida. É um tempo de verdadeira alegria, pois o Salvador está entre nós. O presépio concretiza a nossos olhos, o filho de Deus feito homem ali, na pobreza e na simplicidade de uma gruta, acolhido pelos mansos e humildes de coração.

O Natal é convite à solidariedade e a fraternidade entre os homens. No Dom que Deus faz do seu Filho, o Pai nos convida a partilha, a tornar-nos dons para os nossos irmãos. Dom que se traduz em serviço generoso, solidariedade, luta pela justiça, defesa da ecologia, socorro dos mais pobres, compromisso com a justiça e a paz.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Revolução do Natal




O Natal é a exigência de uma revolução mais radical

O mundo precisa de uma imensa revolução. Até hoje, tem-se organizado na base da conquista: quem tem mais poder, sente-se autorizado a mandar nos outros, a apropriar-se das suas matérias primas, a impor condições ao comércio.

Cristo dissipa as trevas do pecado; É a verdadeira luz cujo esplendor ilumina os olhos de nossa alma, para que enquanto conhecemos a Deus de uma maneira visível, por ele sejamos arrebatados ao amor das coisas invisíveis.

A partir do natal, o Ciclo Litúrgico da igreja, segue passo a passo Jesus na sua obra de redenção, para que a Igreja enriquecida com as graças que emanam do mistério da encarnação, seja, como diz São Paulo, a Esposa sem mancha, sem rugas, santa e imaculada, que Ele poderá apresentar ao Pai, quando vier, no fim dos tempos.

O natal é a exigência de uma revolução mais radical: que cada homem renuncie ao seu egoísmo trate o outro homem como irmão e partilhe com ele os seus bens.

Julgo que uma das missões dos cristãos, hoje, é mostrar que o bem e o mal arrancam da criatividade do sujeito, mas não dispensam uma estrutura dialogal: é preciso que o meu agir não abafe a liberdade do outro, seja de outro ser humano, seja de Deus. Se é errado imaginar Deus simplesmente como o Senhor das regras, também é curto fazer d’Ele um simples espectador do homem.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Exortação Apostólica Eclesial sobre Fé e Religião; por +Dom Eduardo Rocha Quintella, Bispo das Minas Gerais.

Fé e Religião

Aos olhos de quem sabe ver a fé não está morta

A fé pode ser ferida tanto por um atrelamento exclusivo ao rito quanto por um escurecimento da Tradição. Uma relação correta com a Tradição exige que não se confunda fé e religião.

A religião é essencialmente conformista, mais preocupada com devoção e moral, mais orientada ao sagrado do que ao humano e, no fim das contas, mais preocupada com os fins eternos do homem e de modo insuficiente com os seus fins temporais e terrestres.

A fé cristã é de outra natureza totalmente diferente: é sobretudo convite à liberdade, a libertar-se da opinião pública, dos usos e costumes da sociedade e do tempo em que vivemos, muitas vezes das tradições familiares, e isso na fidelidade a uma tradição que marca a continuidade da referência da fé à sua origem histórica, ao evento e ao ensinamento de Cristo e dos Apóstolos.

Essa fé, contrariamente à religião, se situa claramente do lado do humano, não deixando jamais de inventar novas formas de servir ao homem e a cada homem, buscando continuamente como alcançar uma universalidade sempre maior:

A extensão da idéia de catolicidade à globalidade da vida do mundo é talvez o aspecto mais característico do catolicismo pós-conciliar. Crê seja como for e expressar o seu amor pela Igreja em uma época em que muitos são tentados a sair às escondidas, é pela sua fé no Espírito Santo que leva os fiéis pelo caminho da Verdade, como Jesus prometeu aos seus discípulos.

Aos olhos de quem sabe ver a fé não está morta. A Igreja é hoje atravessada por uma vitalidade, às vezes discreta, mas bem real. Testemunhas disso são, por exemplo, aqueles cristãos que se reúnem para rezar, celebrar, compartilhar, às vezes fora do quadro habitual.

O desejo de reconstituir laços de fé e de caridade que estruturam o corpo de Cristo é um sinal de esperança, a promessa de uma renovação da Igreja, em formas ainda inacessíveis.

Não tenho dúvidas: essa Igreja saberá estar presente ao encontro da humanidade, interpretar os sinais dos tempos, retomar a comunicação com o mundo e alimentá-lo com o espírito evangélico.
A Igreja tem um futuro, mas este deve ser buscado só na liberdade que o evangelho lhe abre.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Virtude da Compaixão



Sem a Compaixão o Homem não existe.

A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido, mas ao outro mais vitimado e mortificado. A compaixão anula as diferenças e faz estender as mãos às vitimas. Não importa a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoas.

Mesmo que a nossa vida e o mundo não se transformem na intensidade e na velocidade dos nossos desejos, sabemos que nossas ações transformam ou modificam para melhor, não somente a vida de outras pessoas, mas também a nós mesmos. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.

Na nossa vida sempre encontramos ou cruzamos com pessoas que estão sofrendo por algum motivo. Nestes momentos todos nós somos de um modo ou outro, tocados pelo sofrimento alheio. Isto se chama compaixão.

A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres compassivos.

Na compaixão se dá o encontro de todas as religiões, do Oriente e do Ocidente, de todas éticas, de todas as filosofias, teologias e de todas as culturas. No centro está à dignidade e a autoridade dos que sofrem, provocando em nós a compaixão ativa.

A compaixão de Cristo para com os doentes e suas numerosas curas de enfermos de todo tipo são um sinal evidente de que Deus visitou o seu povo e de que o Reino de Deus está bem próximo.

Jesus não só tem poder de curar, mas também de perdoar os pecados: ele veio curar o homem inteiro, alma e corpo; é o médico de que necessitam os doentes. Sua compaixão para com todos aqueles que sofrem é tão grande que ele se identifica com eles: Estive doente e me visitastes (Mt 25,36).

Seu amor de predileção pelos enfermos não cessou, ao longo dos séculos, de despertar a atenção toda especial dos cristãos para com todos os que sofrem no corpo e na alma.

Reprimir o sentimento inevitável da compaixão é reprimir uma parte do eu que está nas profundezas do nosso ser. Em outras palavras, quem nega o sentimento de compaixão não pode se conhecer e, por isso, nem consegue encontrar uma solução para os seus problemas que foram escondidos, empurrados e trancados no mais fundo de si.

Quem não é capaz de permanecer no sentimento de compaixão, não consegue viver uma vida feliz porque tenta negar a sua própria natureza humana.

Em nossa vida, por vezes nos surpreendemos, seja pelas coisas bonitas que somos e realizamos, seja pelas limitações e contradições que experimentamos. Saber da existência desses paradoxos, nos permite ser mais humanos e mais acolhedores.

E as perguntas que, na maioria das vezes, não encontram respostas, freqüentemente nos visitam a consciência: Por que, se temos capacidade de fazer o bem, optamos pelo mal? Por que desenvolvemos a capacidade destruição quando podemos criar harmonia e boa convivência?

Quando sentimos a compaixão, desejamos que os sofrimentos das outras pessoas cessem, não só porque as amamos ou acreditamos que elas têm direito a uma vida mais digna e humana, mas também para que os nossos sofrimentos resultantes da compaixão sejam aliviados.

Neste processo sentimo-nos compelidos a fazer algo para mudar a situação, assim como também incluímos no nosso horizonte de futuro desejado a superação das situações que causam estes sofrimentos.

Abertura ao sofrimento alheio que nos permite tomar contato com os nossos sofrimentos e medos, a esperança de um futuro onde estes problemas foram solucionados e ações concretas que nos dão convicção firme de que estamos, dentro das possibilidades, fazendo a coisa certa para caminharmos em direção a este futuro desejado são elementos fundamentais de uma vida feliz.

É claro que não devemos cair na tentação e pressão de sermos perfeitamente compassivos e capazes de ações perfeitas e plenas para salvar o mundo. Só na medida em que aceitamos a nossa dificuldade é que poderemos viver e fazer o que podemos de fato.

Compaixão, responsabilidade e solidariedade são valores fundamentais para salvarmos o mundo e as nossas vidas do niilismo, cinismo, da indiferença e da desumanização.

Mesmo que a nossa vida e o mundo não se transformem na intensidade e na velocidade dos nossos desejos, sabemos que nossas ações transformam ou modificam para melhor, não somente a vida de outras pessoas, mas também a nós mesmos.

Sem a compaixão o homem não existe. Pois a realidade está em Deus. Exercitando a compaixão saímos dos túmulos do pecado e da miséria humana. Alcançamos à imortalidade. A compaixão nos livra de morrer em vida.




+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

domingo, 4 de dezembro de 2011

A Metanóia de Cristo

Nunca se faz uma conversão uma vez para sempre.


A conversão tem que se tornar algo que faz descobrir que Deus é a cada dia uma novidade surpreendente e ainda que permita que as outras pessoas, com as quais me relaciono, sejam sempre mais Elas. Deus sempre nos pede a conversão.

E esta se situa não em primeiro lugar no campo moral, mas no campo do pensamento e do ser. A conversão exige uma reformulação do nosso esquema de pensar, de julgar e de viver.

Nunca se faz uma conversão uma vez para sempre, mas todos os dias. O próprio João, que anunciou ao povo, teve necessidade de fazer uma conversão talvez mais profunda do que aquela que ele mesmo exigia dos outros.

Abrir para esta faceta, pessoas e realidades, é descobrir uma faceta nova do rosto de Deus. Porque Deus não muda, o que deve mudar é o nosso modo de ver a Deus. Abandonando preconceitos e suposições.

A conversão não pode ser um processo doloroso, mas uma experiência que liberta. Refletir sobre a conversão é sermos provocado a rever nossos conceitos sobre Deus, sobre as pessoas e sobre nós próprios.

A conversão de cada cristão é um processo lento de assimilação, aprendizado e amadurecimento. E aqueles que hoje são considerados pastores dentro da Igreja correm o mesmo perigo.

Se não procurarem olhar sempre para os apelos de Deus que vem até nós nos fatos sempre novos, examinados à luz da palavra de Deus, chegará para eles o dia em que vão renegar a Igreja que hoje estão ajudando a crescer.




+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Valor Cristão do Perdão


O valor cristão do perdão pode aliviar tantas feridas.

O chamado cristão ao perdão faz parte do que é mais radical e nuclear da mensagem evangélica: o amor. Falar do perdão surpreende, mas não é um aspecto distinto ou regional da mensagem evangélica, mas que manifesta o rosto cristão do amor.

A mensagem cristã se aprende. Sem dúvida, aprende-se, a partir da Palavra e do Espírito de Jesus e no âmbito da própria experiência pessoal. Mas precisamente se aprende não como algo raro e sublime que chega a nossa vida como um adendo, mas como a resposta à pergunta que a humanidade se formula e que todos sentimos dentro: qual é a atitude adequada ante os demais e, em concreto, ante os que fazem e nos fazem mal.

O mundo está marcado por conflitos em todos os níveis: o valor cristão do perdão pode aliviar tantas feridas. Situemos a mensagem cristã sobre o amor que perdoa. Não é só uma palavra proposta a algumas pessoas que sofrem. É a revelação de Deus Pai a uma humanidade marcada pelo ódio, a confrontação e a vingança, há dois mil anos, e hoje também. Deus revela seu chamado a um amor que perdoa, não para aliviar, mas para resolver, como salvação de nossa violência humana por caminhos de paz e de reconciliação.

O perdão é a opção cristã perante um mundo tão desumano. De todas maneiras, os homens podem ignorar este chamado; os conflitos continuam aí e de fato são muito graves. Metidos neste mundo tão violento, a atitude de perdão está chamada a criar âmbitos de humanidade, a recuperar relações que talvez já foram quebradas, aliviando assim feridas muito profundas.

Saber perdoar é uma arte do espírito. Comporta, como mínimo, duas coisas. Uma é aceitar e entender o agressor. Isto não significa justificar algo que pode ser terrível; significa não derivar a experiência da agressão em ódio ao agressor, mas em entender o que faz o mal como pessoa, inclusive em sua malícia. A segunda é ainda mais difícil; é entender que a própria vida ou a dos meus entra também no âmbito do mal, que todos navegamos na mesma nave.

Para o Evangelho, perdoar comporta em sua raiz aceitar também o próprio pecado. Ambas as coisas são possíveis só no âmbito de uma experiência, a do perdão de Deus, ao outro e a mim mesmo. Saber-se já perdoado é o único clima que faz o homem capaz de dar estes dois passos; entender o que o mal faz e aceitar as próprias negatividades, sem negá-las.

Nosso mundo moveu-se nos últimos séculos sob o impulso da justiça, e por ela viveu mudanças e revoluções muito profundas, terríveis, cruentas. Hoje olhamos com horror o sofrimento causado pelas guerras e as revoluções do século passado, e as que continuam hoje, em muitas partes do mundo. A justiça é necessária, mas sua exigência pode levar durezas muito desumanas. Talvez hoje possamos entender algo que antes parecia ridículo: a necessidade de misericórdia.

Creio que é próprio de uma grande maturidade entender a sabedoria escondida no binômio justiça e misericórdia, os dois acentos que a experiência cristã descobre no mistério de Deus Pai. Nisto pode viver uma maturidade que antes era muito difícil, e avaliar o entranhável acento divino e humano da misericórdia de Deus.

Faz parte de um dos acentos de nossa pós-modernidade, o desencanto ante o fracasso de muitos grandes projetos, e o recurso a experiências palpáveis, imediatas, quase como um refúgio ante a falta de perspectivas.
Toda nossa sociedade está nesta situação como perante um desafio. Há quem augura a perda cultural de todo sentido. Não creio. Trata-se de aprender de nosso passado e buscar, sem cair de novo nos enganos de sempre.

Hoje soa como luminosa a frase do Evangelho: Quem busca, encontra. Hoje é possível buscar, e há pessoas e grupos, adultos e jovens, que buscam, em meio de todas as crises. É o germe da humanidade nobre e positiva do futuro. A experiência cristã entende que quem busca a luz sobre a vida a encontra; e que toda luz autêntica é reflexão do Evangelho de Jesus.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo  Diocese Belo Horizonte

terça-feira, 22 de novembro de 2011

REINO DE DEUS


A Igreja vive da fé que brota da evangelização

A Igreja, baseada na Palavra de Deus, é esta: todos nós e tudo o que existe se encaminha para o encontro com Jesus Cristo, Salvador e Senhor, para a manifestação plena da redenção. E isso significa a participação no Reino de Deus em sua plenitude. O título de Cristo-Rei é tomado da linguagem humana para nos ajudar a compreender algo do que é o Reino de Deus e de como reina o Cristo-Senhor.

A Boa Nova da salvação veio ao mundo, por iniciativa amorosa de Deus Pai e do Espírito Santo, pelo envio a nós da Palavra eterna, o Filho Amado. A chegada do Messias foi anunciada pelos Profetas como um evento esperançoso e de grande alegria para toda a humanidade, como recordamos no Advento.

Jesus anunciou a chegada do Reino de Deus como o maior bem para o homem, em função do qual vale a pena investir e arriscar tudo na vida. Enviando seus discípulos ao mundo, Ele os encarregou da proclamação desta Boa Nova a todos os povos. Assim, a Igreja fez ao longo dos séculos e vai continuar a fazer também no presente e no futuro.

Todos os batizados são beneficiados por este belo anúncio; a Igreja vive da fé que brota da evangelização e caminha na esperança da plena realização das promessas de Deus. Ao mesmo tempo, esta não é uma obra para poucos: todos os batizados são, por graça de Deus, discípulos e missionários de Jesus Cristo. Nem todos o fazem do mesmo modo, mas todos precisam sentir-se envolvidos com isso.

A Igreja e à humanidade; os leigos, vivendo e testemunhando sua fé, ajudam a transformar a cultura e as estruturas do convívio humano, para que o bem do Evangelho possa ser acolhido por todos e trazer frutos bons; os missionários dirigem-se aos povos e, entre alegrias e sacrifícios, anunciam também a eles que o Reino de Deus chegou e é um bem para eles.

Os missionários do Reino de Deus, enviados para o meio do mundo para testemunhar e anunciar, de muitas maneiras, que o Reino de Deus já chegou; aderir a ele e viver conforme o jeito do reino é um grande bem para o mundo, a melhor coisa que pode acontecer.

Isso pode parecer sonho distante para quem não tem fé. Mas essa é a esperança dos cristãos, bem fundada na Palavra de Deus. O Reino de Deus é o dom maior, o dom completo de Deus ao homem. Não é sonho distante, pois o Filho de Deus veio ao encontro de todo homem e, com ele, o Reino de Deus já irrompeu nesse nosso mundo. Acolher o Reino de Deus e entrar nele requer mudança de vida, é novidade boa, é a melhor escolha para o homem.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

sábado, 19 de novembro de 2011

Igreja: Unidade na Diversidade

Igreja unidade dos fiéis constituindo um só corpo em Cristo

Deus age pela unidade, mas também pelas Diversidades. Isso pode ser observado na criação. Deus atrai a Si pessoas de todos os ambientes, talentos, temperamentos. No mundo humano, a variação humana é freqüentemente considerada um problema a superar. Deus a considera uma oportunidade de fazer uso de todo o espectro humano para levar Sua mensagem ao mundo.

O orgulho está no centro da desunião, enquanto a humildade está no centro da reconciliação. A gentileza ou mansidão é essencial para a unidade da igreja. Sendo o oposto da auto-afirmação, a mansidão não reage diante das ofensas. Paciência significa resistência diante da aflição, recusa de vingar as injustiças, e não abrir mão da esperança de reparar relacionamentos interrompidos.

Suportar uns aos outros envolve o entendimento da outra pessoa e disposição para se perdoarem e aceitar-se mutuamente. Evidentemente, todas essas graças têm suas raízes no amor, e é esta prática ativa do amor que preserva as relações e promove paz e unidade na comunidade cristã.

Nosso corpo compõe-se de diferentes membros, que realizam diferentes funções. Mas tudo para o crescimento e melhoramento do corpo. Como indivíduos, cada um de nós cuida de seus próprios interesses. O eu é nossa prioridade, mas quando nos tornamos cristãos, devemos ter um alvo: glorificar a Deus. Trabalhando juntos para alcançar um alvo, cresceremos.

Quando nos tornamos cristãos, Cristo deu significado à nossa vida: Sua glorificação e a edificação de Seu corpo, a igreja. Embora sempre sejamos pessoas diferentes, temos sempre diferentes partes a desempenhar porque estamos trabalhando para alcançar o mesmo alvo. É assim que Cristo pode levar-nos à unidade na diversidade.

Deus promoveu a unidade do corpo cristão. Um Deus, por meio de um Cristo nos redimiu do pecado, deu-nos uma fé, nos regenerou por um Espírito, nos fez membros de um corpo por meio de um batismo, e nos deu uma esperança eterna. Toda a Divindade está envolvida na unidade da igreja. Esse tema está em harmonia com o espírito da epístola, que freqüentemente enfatiza o papel da Trindade na história da redenção.

O livro de Efésios foi escrito por Paulo enquanto era prisioneiro em Roma aguardando julgamento. Ele havia fundado a igreja de Éfeso em sua terceira viagem missionária, três a cinco anos antes. Visto que não podia visitar novamente a igreja de Éfeso, escreveu para eles uma carta a fim de fortalecê-los e confirmá-los na graça de Deus e no evangelho de Cristo, bem como para encorajá-los a realizar suas obras de serviço e santidade em resposta à graça salvadora de Deus.

O Espírito Santo promoveu a unidade na igreja formando um corpo, habitando na igreja universal e sendo a esperança da redenção futura. O Filho promoveu a unidade na igreja sendo a cabeça da igreja, o objeto de fé de todos os crentes, e Aquele em quem todos os crentes são identificados. O Pai promoveu a unidade da igreja sendo o Pai de todos. O soberano sobre todos, vivendo através de todos, e habitando em todos os crentes.


+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

Oração Contemplativa


Caminho de Cura Interior

O ser humano não pode ser curado em seu interior através da mera disciplina. O lidar com os pensamentos e os exercícios concretos é um bom auxilio para as paixões se aquietarem e a alma tornar saudável. Mas só a contemplação produz a verdadeira cura. Assim experimentaram os monges e assim deveremos experimentar em nossa vida.

A Contemplação é a oração pura, é a oração continuada, a oração acima dos pensamentos e sentimentos, a oração de união com Deus. A Oração contemplativa é o presente mais belo que Deus nos agraciou. A dignidade humana consiste em unir-se a Deus através da Oração. Existe afinal algo que seja melhor que um tratamento íntimo com Deus e que seja mais elevado que viver inteiramente em sua presença. A oração é a ascensão do espírito para Deus.

O Espírito Santo condutor de nossa oração tem compaixão de nossas fraquezas e freqüentemente vem em nosso auxílio, mesmo que nós não sejamos dignos dele. Se ele nos procura, enquanto lhe oramos por amor à verdade, ele nos inunda e nos ajuda a nos desprendermos de todos os raciocínios e pensamentos que nos mantém presos a nós mesmos, conduzindo-nos assim à oração espiritual.

Quando verdadeiramente oramos, nasce em nós um profundo sentimento de confiança a nos revelar todo o sentido da criação. A oração é o comportamento que corresponde à dignidade do espírito; ou, melhor ainda, é a sua mais nobre e apropriada ação.

É através da oração de contemplação que alcançamos o estado da mais profunda paz. Descobrimos em nós um espaço do puro calar. E é ai que Deus mesmo habita em nós. E este espaço, que é o espaço de silêncio em nós: chama-se Lugar de Deus ou Visão de Paz.

É através da oração que o homem vê sua própria luz. E é por esta luz que ele descobre a sua própria natureza, que é toda reluzente e tem parte na luz de Deus. Neste lugar de Deus, no lugar da paz no interior da alma, tudo é silêncio e ai só Deus habita. Ai tudo é curado. É também ai que, no amor de Deus, todas as feridas que a vida possa nos ter infligido são cicatrizadas.

Ai desaparecem todos os pensamentos em relação às pessoas que nos feriram. Nossas paixões não têm ai nenhum acesso; ai também os homens não podem atingir-nos com suas expectativas, opiniões e preconceitos. Pois é ai que nos unimos a Deus, mergulhados em sua luz, em sua paz, em seu amor. Esta é a meta do caminho Espiritual.

Somente quando sentirmos que a realidade é propriamente mais profunda, isto é, que é Deus a realidade mais profunda, nos libertaremos de nossos problemas. É através da oração que podemos mergulhar no espaço do verdadeiro silêncio; silêncio em que tudo está salvo, curado e integrado; silêncio no qual nos é dado sentir uma profunda paz, apesar de todas as feridas e humilhações.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

sábado, 29 de outubro de 2011

XXXI Domingo do Tempo Comum - (Mt 23,1-12) – Ano A – 30/10/2011




O MAIOR DENTRE VÓS DEVE SER 
AQUELEQUE VOS SERVE
Neste XXXIº Domingo do tempo comum somos orientados a saber que o anúncio da Palavra de Deus deve se nortear pelo amor ao evangelho e aos irmãos, e não por interesses próprios.

A Igreja, testemunha do Reino e dos valores propostos por Jesus, tem de ser uma comunidade de irmãos que vivem no amor. Nela, não podem ser determinantes os títulos, os lugares de honra, os privilégios, a importância hierárquica.

Na comunidade cristã, a única coisa determinante é o serviço simples e humilde que se presta aos irmãos. Os mandamentos, as normas e as leis religiosas são instrumentos que ajudam o discípulo e a discípula a caminhar nos caminhos de Deus. São setas que indicam caminhos de liberdade e não algemas que impedem o fluir da vida.

O grande desafio para a manifestação de Deus é a relação entre Deus e os mitos, e se faz necessário que se desatrelem os mitos da Sagrada Escritura, do modo de pensar do mundo antigo buscando uma nova dinâmica no ver, julgar e agir dos acontecimentos do mundo contemporâneo. 

A história da revelação está interligada com a história da salvação, mas Deus não se revela de uma só vez. Deus se revela por inspiração própria, mas geralmente por uma palavra profética. A história da salvação se dá na medida em que o homem tem consciência desta revelação, através de um fato explícito ou implícito, dependendo exclusivamente da graça para que se consolide. 

A razão de ser da salvação e da própria natureza de Deus, que se revela plenamente, está no amor-serviço. Suas mensagens têm sempre direções culturais, históricas e pessoais, com um caráter universal e permanente na vida e na história da revelação e salvação do homem.



+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Experiência de fé



Cada um traz em si alguma esperança messiânica, alguma utopia. Será que ela corresponde ao critério de Cristo, que mostra ser, ao mesmo tempo, a negação e a plenitude daquilo que esperamos.

Para receber em plenitude, precisamos admitir uma revisão daquilo que esperamos. Talvez seja isso: amar o que Deus ordena e receber o que ele promete.

Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor, a forma física e a saúde. Como os critérios de Deus são diferentes.

Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva.

Somente podem experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza.

Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja. Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força.

O Evangelho mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração.

À beira do caminho, havia um cego mendigo. Ele era ninguém, nem nome tinha. Marcos só diz que era o bartimeu, o filho de Timeu. Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida.

Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós. Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida. Ele grita alto: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim.

Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte. Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: Eu temo o Cristo que passa. É preciso não perder a chance, é preciso gritar, não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência.

O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus filho de Davi, o bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: Filho de Davi tem piedade de mim.

Repreendem o cego, como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: Filho de Davi tem piedade de mim.

O cego foi curado, e seguia Jesus pelo caminho. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé.

A Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti. Não queremos colocar nossas forças ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos ou nos elogios do mundo.

Tu somente és nossa força. Nos salva Senhor. Reúne-nos Senhor. Ilumina-nos, Senhor. Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz.

O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos. Senhor abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até a vida.


+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A MISSÃO NASCE DA EUCARISTIA



A Eucaristia é a fonte da vida cristã. É o mistério da fé, o Dom por excelência, o maior tesouro espiritual da igreja. A igreja vive da Eucaristia. Temos a obrigação de conhecê-la, aprofundá-la e compreendê-la mais para assim amá-la.

A Eucaristia é o sacrifício decisivo da cruz, é Jesus Cristo vivo e ressuscitado na forma de pão. Cada vez que é celebrado o sacrifício da Eucaristia é realizado a única e a mesma morte e ressurreição. Queremos intensificar nosso amor e nossa devoção a Jesus Eucarístico.

O mês de outubro, tradicionalmente conhecido como um tempo dedicado à meditação dos mistérios do Rosário, recorda-nos o compromisso de rezar e trabalhar pelas missões. Perto da sua comunidade, quem sabe, tem uma área de missão ainda não assistida. De que forma os ministérios e os serviços que nascem da Eucaristia podem estar ajudando a evangelizar e a humanizar a vida das pessoas.

A Santa Igreja confiou às comunidades cristãs uma missão importantíssima: revelar as riquezas do amor de Deus contidas na Eucaristia. Trata-se de um serviço que ultrapassa a capacidade das comunidades eclesiais no Brasil. Por isso, necessitamos da valiosa colaboração dos leigos que, na condição de protagonistas da ação evangelizadora, ajudam-nos a viver com fidelidade criativa a nossa vocação e missão a serviço do povo de Deus.

Caro Irmão e irmã colaborem com o mês do Rosário e das Missões, juntando-se à sua comunidade, para juntos partilharmos o Pão da Palavra e da Eucaristia com tantos irmãos e Irmãs que têm fome e sede de Deus. Nossas comunidades estão de portas abertas para recebê-los.

O apostolado tem origem na missão da Igreja de continuar a obra da Redenção de Cristo. Empreendem esta missão principalmente em seu meio: no seu trabalho cotidiano e na Igreja local, tanto pelo exemplo como pela ação.

Devemos saber reconhecer o tempo em que estamos vivendo. Vivemos os últimos tempos, o tempo pós-pascal, tempo de edificação do Reino de Deus na história dos homens, tempo de fazer com que o mistério da cruz e da ressurreição produzir frutos de fraternidade, justiça e solidariedade, tempo de presença do Espírito Santo na vida de todos, tempo de crescimento no amor e na verdade, tempo de reconciliação, de construção da paz e da vida nova, tempo de sentir os apelos do reino que se manifestam na história, apelos para nos comprometermos com os pequenos apelos para celebrarmos o Deus atuante na história.


+Dom Eduardo Rocha Quintella
Bispo Diocese Belo Horizonte

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Jesus e o Reino de Deus



Jesus pregava o reino de Deus. Muitos exegetas concluem que esse era o verdadeiro núcleo da mensagem de Jesus à palestina do século I. Em certo nível, talvez seja impossível estabelecer com precisão tudo o que Jesus quis designar com a expressão reino de Deus.

Em outro nível, entretanto, tal designativo pode ser facilmente compreendido por todos: Sabemos perfeitamente bem o que ele quis dizer em termos gerais: O poder soberano de Deus. Na oração ensinada por Jesus, os cristãos suplicam regularmente que seja feita a tua vontade [Deus], assim na terra como no céu (Mt 6, 10). Esse é o reino de Deus.

A expressão reino de Deus é um símbolo religioso que remete a uma esfera transcendental. Na medida em que alude ao reino de Deus, é realidade engendrada por um poder transcendente que não tem como ser circunscrito pela imaginação humana, nem definido em termos conceituais ou factuais precisos.

O reino de Deus é escatológico; em última instância, abarca o futuro, o fim dos tempos, o arremate e a realização da história. Trata-se de um reino utópico, e pensar que seu advento ocorrerá em determinado tempo e lugar é equivocar-se a respeito do símbolo.

Até onde sabemos, Jesus nunca definiu exatamente como o reino de Deus se manifestaria; não disse de que maneira seria instaurado. Contudo, o reino de Deus faz sentido contra o pano de fundo das profundas negatividades da vida humana; apela ao desejo e à esperança humanos em favor do que deve e pode ser, em virtude do poder de Deus, em face da impotência humana.

Em função de sua transcendência última, o reino será concebido de inúmeras formas diferentes. Em Jesus, contudo, o reino de Deus não está apartado nem desvinculado deste mundo. Em seu ensinamento, o reino é iminente, está em via de instaurar-se no mundo; Jesus é seu precursor, em certos aspectos, é seu agente, e o reino de Deus vem à luz em seu magistério e em sua ação.

Diversas dimensões do reinado de Deus podem ser experienciadas como concentradas em Jesus: o reino de Deus do futuro está ligado à sua pessoa e à sua ação; a práxis de Jesus torna o reinado de Deus presente, e defende-se que isso é uma causa e uma missão que atrai discípulos.

Ao fazer do reino de Deus o núcleo de sua pregação, Jesus foi teocêntrico. Não proclama a si mesmo; sua pessoa e sua obra não aparecem como o foco do seu próprio ensinamento. Pelo contrário, Jesus falava a respeito de Deus, a quem se referia como Pai. Deus, a vontade de Deus, os valores de Deus, as prioridades de Deus dominavam tudo quanto se lembrava haver Jesus dito e feito.

Quando afirma que Jesus foi obediente ou recebeu uma missão do Pai, o novo testamento reflete a centralidade do reino de Deus na vida de Jesus como causa. O consistente retrato de Jesus é de alguém absolutamente comprometido e fiel à missão de concretizar e objetivar a vontade e os valores de Deus na história.

O fato de o reino de Deus ter sido tão central para a vida e o ensinamento de Jesus torna-o normativo para o teólogo cristão: as cristologias que o negligenciam são inadequadas, e, positivamente, os cristãos devem descobrir algum significado para o reino de Deus em sua concepção teológica do mundo.

+Dom Eduardo Rocha Quintella

Bispo  Diocese Belo Horizonte 

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